Dezenove horas... aeroporto bombando...é o horário de pico.
- Onde fica o banheiro feminino?
- Quantos quilos pode ter a minha mala num vôo internacional?
- Onde se pode comer aqui?
- Change money?
- Onde faço o checkín da TAM?
- Quanto tempo de vôo de MIA a CDG (essa foi difícil)?
A mesma rotina: telefone, balcão, att... balcão, telefone att..., telefone, balcão, att...
Mas as histórias...
Bem, lá vem mais uma.
Quase 8 horas da noite um senhor chega ao balcão e pede pra falar com o Coordenador de Supervisão. Fiz a ligação para a sala do supervisor e os coloquei em contato.
Ele veio ao encontro do homem. Conversaram reservadamente , até que o supervisor se afastou.
o homem se aproxima do balcão e nos conta a sua história.
Sua filha de 7 anos de idade havia falecido em São Paulo e ele precisava fazer o traslado do corpo até as 10h da manhã.
Segundo ele, sua filha havia nascido com um tumor no coração e vivia com uma abertura no peito por onde funcionava uma engenhoca mecânica que substituía as funções do coração. Imagino ser algo do tipo máquina de hemodiálise que dá conta do serviço que deveria ser feito pelos rins.
Moradores de uma comunidade do bairro de Campo Grande, há mais ou menos 40Km do centro da cidade, surgiu a esperança na pequena família, composta por ele, sua esposa e a filha do casal; de um transplante de coração para a menina, em São Paulo. Muito humilde, o máximo que ele conseguiu recolher foi dinheiro para que as duas fossem, mãe e filha, para o Hospital das Clínicas, naquele Estado, enfrentando sete horas de viagem num ônibus interestadual.
Mas, devido a tanta fragilidade sua filha não resistira e morrera, ainda no ônibus, não conseguindo chegar a tempo no hospital.
A mãe da menina estava em estado de choque, e foi internada no mesmo hospital onde seria realizado o transplante.
Ele precisava estar em São Paulo até as 10 horas da manhã de amanhã, 04/jan, para liberar o corpo da menina, ou seria enterrada como indigente, uma vez que o óbito ocorreu em 26/12.
Ele afirma que veio caminhando de sua casa até o INCA, no centro. De lá, dirigiu-se ao aeroporto Santos Dumont, e dali ao nosso querido Galeão.
Os serviços de assistência social em SP, conseguiram o traslado em carro funerário sem custo para a família e, eles poderiam retornar ao Rio também no carro funerário.
Liguei para a Rodoviária Novo Rio e soube que havia um ônibus para SP às 23 horas com vinte lugares vagos ao preço de R$ 63,00.
Busquei preços em cias. aéreas, mas as tarifas estavam altíssimas. Algo em torno de R$ 500,00.
Nós, funcionários da INFRAERO resolvemos promover um rateio para arrecadar o valor necessário para sua ida à SP.
Não conseguimos mandá-lo a Sampa em vôo nenhum, mas conseguimos arrecadar dinheiro suficiente para a passagem de ônibus até a rodoviária, para o ônibus a SP e para sua refeição.
E lá se foi o homem, sem ter palavras para agradecer nosso gesto.
Fomos julgados por isso, claro.
Muitos achavam a história daquele homem fantasiosa demais.
Muitos diziam que o dinheiro serviria apenas para sustentar vícios.
Muitos diziam que era muito fácil ser-mos enganados.
Poucos contribuíram. Mas a contribuição dos poucos, foi suficiente para tentar amenizar a dor daquela família.
Não nos interessa saber em quê aquele dinheiro será utilizado. Só nos compete a intenção com que demos aquele dinheiro.
Tomara que, realmente tenhamos contribuído para o bem, mas fizemos o que o nosso coração nos disse que fizéssemos.
Essa é mais uma história de aeroporto, daquelas que nunca saberemos qual foi o seu fim, mas, sem dúvida nós já o escolhemos.

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